Outubro Rosa: pandemia reduz em até 70% atendimentos na área de mastologia

A pandemia afetou o diagnóstico e o tratamento de diversas doenças, inclusive o câncer de mama. Seja pelo medo de contaminação, pela alta ocupação dos leitos pela Covid-19 ou pela dificuldade de acesso nos momentos de pico da pandemia, muitas pessoas deixaram de dar continuidade aos tratamentos ou protelaram os exames preventivos.

Às vésperas do Outubro Rosa, no final de setembro foi divulgado um estudo realizado pela Inteligência em Pesquisa e Consultoria (Ipec), a pedido da Pfizer, revelando que 47% das mulheres não realizaram as consultas ao ginecologista ou o mastologista durante a pandemia de Covid-19.

A crise sanitária agravou o que já estava longe de ser ideal em Alagoas e no Brasil: o atendimento às pacientes com câncer de mama, principalmente no Sistema Único de Saúde (SUS).

“A pandemia de Covid-19 veio para escancarar ainda mais essa situação, pois por meses todos nos enclausuramos em nossas casas por um bem maior, que foi tentar evitar a contaminação pelo novo coronavírus e isso provocou em todo o país uma redução de até 70% nos atendimentos na área da mastologia e em Alagoas o número foi muito semelhante”, afirmou a médica Lígia Teixeira, presidente da Sociedade Brasileira de Mastologia regional Alagoas (SBM-AL)

Ela acrescentou que embora tenha acontecido um retorno às consultas e exames, os números mostram que ainda estamos muito longe do ideal.

Quanto às melhorias necessárias para estimular as consultas e os exames, a mastologista observou que no Brasil não faltam mamógrafos e o número é adequado, no entanto a qualidade dos exames não é apropriada, os equipamentos estão defasados e geograficamente mal distribuídos.

Uma iniciativa que poderia contribuir para melhorar o atendimento seria a criação de uma rede de apoio às mulheres que apresentam sintomas ou alterações nos exames de mamografias, sugeriu Lígia Teixeira. “Existe um modelo muito interessante de atendimento capitaneado pela mastologista Sandra Gioia, no Rio de Janeiro, chamado de Navegação de Pacientes que nada mais é do que uma rede integrada de profissionais como mastologistas, assistentes sociais, enfermeiros, técnicos de enfermagem, enfim todos os envolvidos no diagnóstico e tratamento do câncer de mama onde eles ‘navegam com a paciente’ dentro do Sistema Único de Saúde facilitando e agilizando as consultas, biopsias, exames e principalmente o tratamento”, contou.

Caminhada pela saúde 

Quanto às celebrações em Maceió alusivas ao Outubro Rosa, a presidente da SBM-AL falou que no dia 10 de outubro será realizada uma caminhada e um café da manhã na orla da capital. Por conta das restrições impostas pela pandemia o evento será restrito a pessoas convidadas e que lidam com pacientes com câncer de mama.

O evento simboliza a prevenção do câncer de mama através de dois fatores essenciais que são a atividade física, representada pela caminhada e alimentação saudável, que será então representada pelo café da manhã oferecido aos convidados onde o cardápio será composto por alimentos naturais e orgânicos.

Ame-se 

No dia 23 de outubro de 2020 o govenador Renan Filho assinou o decreto criando a Política Estadual de Atenção Integral à Saúde da Mulher, durante o lançamento do Ame-se, Programa Estadual de Reconstrução Mamária em Pacientes Mastectomizadas.

Apesar das limitações impostas pela pandemia e do recuo de muitos pacientes pela busca de atendimentos por receio de contrair Covid-19, a Secretaria de Estado da Saúde (Sesau) informou que, desde o lançamento do Ame-se até o dia 29 de setembro deste ano, 65 mulheres foram atendidas no Ambulatório do Programa Ame-se, no Hospital Metropolitano de Alagoas (HMA), onde também já foram efetuadas 13 cirurgias de reconstrução mamária.

Antes do programa, pelos números registrados no Datasus, apenas quatro ou cinco reconstruções eram feitas ao ano, reforçou a assessoria, salientando ainda que, mesmo com o período em que as cirurgias foram interrompidas temporariamente, em virtude da ocupação de leitos pela pandemia da Covid-19, elas tiveram crescimento anual triplicado, se comparado a períodos anteriores.

Os atendimentos e as cirurgias que inicialmente eram realizadas no Hospital Regional da Mata, em União dos Palmares, agora estão sendo realizadas no ambulatório do Ame-se, que funciona no Hospital Metropolitano.

Renascimento 

“Nós, mulheres que perderam sua mama, como eu que perdi a mama esquerda, ter a mama de volta é renascer. A mama faz parte da nossa sensualidade, da nossa autoestima, não é apenas um membro do corpo”. O depoimento é da deputada federal Tereza Nelma, autora da emenda que destinou R$ 500 mil do Orçamento da União para o lançamento do Ame-se.

Destacando a importância do programa lançado pelo governo de Alagoas, a parlamentar contou ao CadaMinuto que algumas das mulheres atendidas esperavam pela reconstrução mamária há mais de 10, 15 anos.

Questionada sobre o que é necessário para melhorar o atendimento às mulheres com câncer de mama no estado, Tereza ressaltou que o tempo de espera é crucial para o tratamento da doença: “O câncer não espera, mata. Esse tempo de espera na saúde pública ainda é algo que precisa melhorar. Estou na Câmara Federal cobrando a regulamentação da lei 13.896/19, que determina que os exames no caso de suspeita de câncer sejam realizados em no máximo 30 dias. Junto com a deputada Carmem Zanotto, ela que é a autora da proposta que deu origem à lei e estamos juntas nessa luta. Temos que assegurar que isso aconteça na prática em cada um dos nossos municípios”.

A parlamentar lembrou que está levando para Arapiraca uma unidade Hospital de Amor, de Barretos/SP – referência no Brasil em diagnóstico e tratamento de câncer de mama, colo de útero, Câncer de boca, entre outros -, com data de inauguração prevista para 16 de dezembro deste ano.

Junto com o Hospital vem também a Carreata de Amor, unidade móvel que vai percorrer os 46 municípios próximos realizando exames de mamografia.  Para a deputada, isso vai contribuir para a redução da incidência de câncer de mama no Brasil, que mata anualmente cerca de 14 mil mulheres. Também há a perspectiva de, em 2022, levar uma unidade de prevenção para o município de Delmiro Gouveia, atendendo também a população do Sertão.

“O câncer é uma das principais causas de mortes prematuras no mundo. No Brasil são mais de 600 mil casos por ano com mais de 200 mil óbitos em decorrência da doença. Os números indicam que até 2030 o câncer se torne primeira causa de morte. Diante disso é necessário que nós parlamentares façamos a defesa do direito à vida e do acesso à saúde pública e façamos a nossa parte com investimentos em equipamentos de saúde que ajudem os gestores dos municípios a atender a população. É nosso dever ajudar a conter esses números, propor investimos para o diagnóstico e bem-estar dos pacientes. Temos que trabalhar, todos juntos e juntas, para o enfrentamento do câncer no nosso país”, avaliou Tereza.

Ações 

A deputada federal lembrou ainda que haverá ações alusivas ao Outubro Rosa durante todo o mês. No dia 1º o lançamento da campanha foi no Centro da capital e no dia 13, em Arapiraca, está programado um grande movimento para chamar a atenção da população do Agreste. Dia 22 a equipe da Associação das Pessoas com Câncer (Apecan) estará em Delmiro Gouveia, em uma ação de conscientização sobre importância do autoexame.

Antes disso, no dia 4, um grande evento em alusão ao Outubro Rosa acontece no salão Negro da Câmara dos Deputados e serão acesas luzes cor de rosa no Congresso Nacional.

“Sou uma pessoa agregadora e articulei para que todas as comissões da Câmara se unissem em uma solenidade de alerta quando faremos uma grande discussão sobre o tema, com muitos debates. Normalmente as comissões faziam de forma separada, esse ano será diferente. Uniremos todas para que juntos possamos fazer uma grande discussão. Queremos chamar a atenção do Brasil para a importância de combater o câncer de mama. Queremos discutir a grande questão de mulheres com 40 anos não poderem fazer a mamografia. Sou relatora do projeto de Lei que institui que a mulher a partir de 40 anos de idade possa fazer a mamografia. Nós mulheres não queremos morrer, nós queremos viver, criar nossos filhos, criar nossos netos”, concluiu Tereza Nelma.

Fundo Estadual de Combate ao Câncer 

Autora da lei de criação do Fundo Estadual de Combate ao Câncer (FECC), a deputada estadual Jó Pereira vem há alguns meses cobrando a regulamentação do fundo por parte do governo do Estado. Promulgada no final de abril deste ano, a lei garante a reserva de 5% dos recursos da receita bruta do ICMS incidentes sobre cigarros e demais derivados do tabaco; bebidas alcoólicas; agrotóxicos e defensivos agrícolas para uso exclusivo em ações de combate ao câncer.

Em entrevista ao CadaMinuto, a parlamentar destacou que o governo do Estado precisa cumprir a lei, tornando o fundo uma realidade e, para isso, o primeiro passo é regulamentar. Segundo Jó, o FECC já está garantido no Orçamento, tendo sido criada a rubrica orçamentária de R$ 4,7 milhões para 2022, mas não foi incorporado ainda no Orçamento de 2021, segundo informado pela Seplag.

“O fundo direciona parte da arrecadação do estado para que ela seja obrigatoriamente usada no combate ao câncer, desde a prevenção, diagnóstico precoce, até o tratamento, oferta de exames, cirurgias, etc. É um recurso que pode fomentar a formação da rede de atendimento ao câncer em Alagoas, com equipamentos para realização de exames, custeio de cirurgias e é importante ressaltar que esse recurso está fora dos 12% do percentual mínimo exigido por lei para investimentos na área da saúde”, explicou.

A parlamentar lembrou que, antes da criação do Fundo, conjuntamente com a Assembleia Legislativa, foi aprovada uma emenda – de autoria dela – destinando 1% (mais de R$ 100 milhões) dos recursos do Orçamento Anual para o atendimento oncológico, mas, ao longo dos anos, a execução orçamentária dessa emenda nunca ocorreu, o que lhe motivou a propor a lei criando o Fundo.

“Desde que o Fundo foi promulgado pela Assembleia, a partir de maio deste ano já temos a vinculação da arrecadação do percentual do ICMS dos produtos citados na lei para essa reserva”, afirmou Jó.

Segundo informado a ela pela Sefaz, dados referentes a junho, julho e agosto mostram uma arrecadação média das cadeias produtivas vinculadas ao Fundo em torno R$ 23 milhões por mês. “É para termos em caixa 5% de toda essa arrecadação, desde maio, o que daria, em uma conta muito por alto, cerca de R$ 8 milhões aproximadamente que, para o governo usar, precisa regulamentar. O recurso está reservado no Fundo, mas é preciso regulamentação, inclusive criando um conselho paritário para definir utilização dos recursos. A utilização dos recursos precisa acontecer, afinal, quem tem câncer tem pressa e se tem recursos para melhorar o atendimento a gente precisa investir na rede de combate ao câncer”, ressaltou.

“As pessoas não têm acesso as biópsias, os exames não são conclusivos, então é necessário avançar nesse sentido, ofertando tratamento adequado e diagnóstico correto. Por exemplo, o câncer de mama é um dos que mais têm chance de cura, desde que diagnosticado de forma precoce e para isso é necessário investimento na oferta dos exames, mamografia, ultrassonografia, biópsia para fechar o diagnóstico e iniciar o tratamento. Esse é grande desafio da mulher alagoana hoje no que diz respeito ao câncer de mama: fechar o diagnóstico a tempo de salvar sua vida”, prosseguiu Jó.

“Não existe saúde sem investimento público. Alagoas tem 90% de sua população atendida pelo SUS, então, ou aumenta o investimento ou essas pessoas vão estar sempre sofrendo no que diz respeito ao acesso ao serviço de saúde de qualidade”, finalizou a deputada.

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